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O ténis de mesa português nunca tinha jogado na I Divisão mundial, nunca tinha estado representado nos Jogos Olímpicos e nunca um atleta nacional tinha estado entre os 100 melhores do ranking. O que era verdade há uma década é hoje uma realidade ultrapassada, graças a três jovens talentos: João Monteiro (28 anos), Tiago Apolónia (25) e Marcos Freitas (23) têm elevado a modalidade a patamares nunca antes alcançados.
O mais recente marco foi atingido nos Europeus de 2011, que terminaram no domingo em Gdansk (Polónia), onde o trio português foi terceiro na prova por equipas e Marcos Freitas venceu a variante de pares, ao lado do croata Andrej Gacina.
E não se pense que a conquista de medalhas foi uma surpresa. Contactados pelo PÚBLICO, os três atletas concordam que este era um objectivo assumido. “Estes resultados não me espantam. Já somos considerados favoritos. Só perdemos com a Alemanha, que é a grande potência europeia e foi segunda nos Jogos Olímpicos e no Mundial”, resume Marcos Freitas, o mais novo do trio.
O progresso da modalidade na última década está intimamente ligado ao talento destes três jogadores e também à aposta de todos eles na emigração. “Tive de abandonar o país e a família, para ter melhores condições de treino”, diz João Monteiro, que alinha no Saarbrücken, da Alemanha. Tiago Apolónia joga no
Ténis de mesa não é pingue-pongue da escola
Um mundo que movimenta milhões
O ténis de mesa tem pouca expressão em Portugal, mas é uma modalidade que movimenta muitos milhões de euros em países como a Alemanha e a França, onde actualmente jogam os melhores atletas portugueses e mundiais.
“Os melhores ‘mesatenistas’ a nível mundial [dentro do top 50] auferem ordenados altos e têm patrocínios, principalmente de marcas de ténis de mesa, igualmente elevados. O exemplo maior é o Timo Boll [campeão europeu]. Fala-se que tem um rendimento anual por volta de um milhão de euros em contratos de clube, patrocínios e prize money de torneios”, conta ao PÚBLICO Tiago Apolónia.
A Bundesliga junta alguns dos melhores atletas do mundo, tendo transmissões televisivas regulares e salários superiores a 15 mil ou 20 mil euros mensais para os melhores. “Temos duas mil a três mil pessoas a assistirem aos nossos jogos”, diz João Monteiro, sublinhando que “as pessoas em Portugal não têm noção do nível de profissionalismo que a modalidade atingiu”: “Quando falo em ténis de mesa, as pessoas associam ao pingue-pongue e pensam que era aquilo que jogavam na escola. Não tem nada a ver”, aponta o jogador português. Basta dizer que as bolas atingem velocidades na ordem dos 200 km/h e que a exigência é muito elevada. “Eles treinam cinco horas por dia na sala, além do tempo que dedicam ao trabalho de ginásio, às massagens e também à análise de vídeos dos adversários”, explica Ricardo Faria, treinador da selecção.
Este nível de exigência obrigou mesmo os três atletas a abandonarem os estudos. João Monteiro parou no terceiro ano de Ciências de Desporto, curso que espera retomar no fim da carreira, enquanto Tiago Apolónia teve de suspender o curso de Gestão que frequentava (1.º ano). Marcos Freitas também deixou a universidade para mais tarde.
Cortesia do PUBLICO.PT Desporto
Ochsenhausen e hoje até defronta João Monteiro na Bundesliga, enquanto Marcos Freitas se mudou nesta temporada para o Pontoise (França).
“Na Alemanha e em França, treinamos e jogamos contra os melhores do mundo todas as semanas. Em Portugal, só os defrontávamos de vez em quando, nas competições internacionais”, diz Marcos Freitas, sobre a importância de terem emigrado.
A maior experiência internacional reflectiu-se também no ranking mundial. Há uns anos, Portugal nem sonhava estar representado entre os 100 melhores. Agora tem três atletas: Marcos Freitas ocupa o 38.º lugar, Tiago Apolónia o 46.º e João Monteiro o 65.º – e os três até podem melhorar na próxima actualização do ranking, no início de Novembro.
“Temos uma equipa muito jovem e com margem de progressão. Sem dúvida nenhuma que podemos esperar mais deles”, afirma Ricardo Faria, treinador da selecção. “Quem sabe se no futuro não podemos ser segundos ou primeiros”, acrescenta João Monteiro.
O próximo passo é o apuramento para os Jogos Olímpicos de Londres. Em Abril, realiza-se o torneio de qualificação europeu, que dá 11 vagas. E, em Maio, há a última oportunidade, no torneio mundial, em que são atribuídos os últimos três lugares.
Em Pequim, Portugal teve três representantes na prova de singulares. Desta vez, não será possível repetir, porque as regras foram alteradas e cada país só pode ter dois atletas na competição individual. A meta é, por isso, ter dois atletas na prova de singulares e apurar a equipa. “Se se qualificarem os três, os primeiros dois a obterem o apuramento serão os participantes nos singulares”, esclarece Carlos Léon, presidente da Federação Portuguesa de Ténis de Mesa.
Actualmente, Tiago Apolónia é o único “mesatenista” integrado no projecto olímpico, recebendo 850 euros mensais, além de o treinador encaixar uma verba correspondente a 80% deste valor – o jovem é o único, porque atingiu o 19.º lugar no ranking, enquanto Monteiro e Freitas ainda não cumpriram os critérios definidos pelo Comité Olímpico e pela federação, que tem direito a 4000 euros mensais para preparar a prova por equipas.
A melhoria na elite do ténis de mesa português, no entanto, não tem sido acompanhada por um crescimento do número de atletas. Em 2009, aliás, havia apenas 3205 “mesatenistas” federados, contra 4078 em 1996. “Não temos obsessão por números. Queremos ter, e temos, uma base sólida e geograficamente bem distribuída, de Norte a Sul e nas duas regiões autónomas”, aponta Carlos León.
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